Ladrão no Quintal

O texto de ontem falando sobre o quintal da minha infância acordou muitas lembranças na minha mente e eu gostaria de dar uma refletida com vocês no texto de hoje… aquele lugar foi especial para todos nós, incluindo os primos também, pois era lá que nós soltávamos nossa imaginação.

Não é preciso se ter muito conhecimento sobre astrologia, astronomia, numerologia, radiestesia, saber da influência ou da força que o local que você mora tem na sua vida, saber de física quântica, das energias dos ambientes, de feng shui, Radiestesia, etc… mas fazendo uma análise bem rápida, aquele lugar era horrível para se criar 9 filhos. Não tinha favorecimento nenhum para 9 crianças crescerem com um pouco de espaço para explorar seu potencial criativo, mas nós dávamos o nosso melhor e nos divertíamos pra valer.

Nós usávamos muito do nosso tempo livre no quintal construindo parques de diversão com portas de guarda-roupa, montávamos piscina no tanquinho de lavar roupa, escovávamos os dentes por horas(dizem que a boca é sensível para os que são sensíveis), bisbilhotávamos os vizinhos por cima do muro… a casa de traz sempre tinha inquilinos novos, lembro que uma vez chegou uma família da Umbanda e uma vez por mês o bombo tocava por ali, tinha muita dança de roda, banquete para os santos… eu não tinha idade para ter se uma opinião sobre aquela manifestação, até achava bonito, mas minha mãe ficava se benzendo.

O bairro se chama Afogados(no comments), nossa rua tinha o nome de Tamarindo(quem gosta de tamarindo aê?), o número da casa era 43(que se somarmos 4+3 teremos 7 que significa conclusão de ciclo ou renovação, isto pode ser bom ou ruim dependendo do contexto), morávamos ao lado da rua principal que se chama: 21 de abril(dia que celebra o enforcamento do mártir Tiradentes na inconfidência Mineira), a cada 5 min passava o metro do bairro ao lado da nossa casa(o movimento que a máquina faz obviamente modifica a harmonia do ambiente), todo o local foi aterrado há uns 50 anos atrás do tempo que morávamos por lá, ou seja, tudo era Mangue/Maré/Lama/Metano, etc). Go it?!

O bairro era perigoso e por isto que minha mãe não soltava a cria na rua para os bandidos não caírem em cima para recrutar para o tráfico, sacou?! Bairro de periferia, subúrbio, tem suas próprias leis, ética… e bandido que mexe com a comunidade é bandido morto, se você é do bem, eles não mexem com você e até facilita. Eu até conversava com alguns e tudo funciona direitinho. Apesar de tudo vir de encontro contra nossa sorte, todos nós(os 9) somos cidadãos de bem, quase todos tem formação acadêmica hoje e colhemos os frutos do nosso esforço coletivo.

Nossa casa tinha três quartos, um para os meninos, um para as meninas e o do meus pais… só havia UM banheiro para a trupe(imagina a zona)e a cozinha era o lugar mais quente da casa. Nosso aconchego do lar tinha o que contar… as nossas raízes foram plantadas por lá pois conversando com meus irmãos, eles(assim como eu) só tem sonhos com a casa da Tamarindo ainda hoje na fase adulta. Temos o barulho do metrô nas nossas cabeças até hoje também.

Nossa escola era no centro da cidade e nós morávamos na periferia… isto levava todo nosso tempo e assim nós não tínhamos muito tempo, nem permissão, de brincar com as outras crianças do bairro. Acredito que isto nos desviou de algumas tragédias ou coisas chatas… bons tempos os de Afoga(Afogados).

Eram 23 horas da noite uma vez e eu já estava dormindo quando fui acordada pelo meu irmão Anselmo que veio quase engatinhando, eu dormia na parte de cima do beliche, a janela estava aberta e lembro que acordei com a voz de Anselmo: “Mary, acorda e sai daí pois tem um cara no beco, eu ouvi um um barulho estranho!”… eu só ouvi: “Mary, sai daí, Cara, beco, estranho!”. Eu dei um pulo do beliche, me inflei e sai correndo dali, parecia com aqueles bonecos de Posto de gasolina… rs, rs, rs… lembrei daquele vídeo solto pela net que o boi entra no hospital onde a paciente esquece da dor e sai correndo feito uma louca, como quem diz: “Pernas, para quê te quero?!” Eu costumo inflar as narinas quando estou com raiva ou estressada, acredito que eu daria uma péssima jogadora de pôquer/poker … e só se via as danadinhas das narinas enormesss. Descobrimos depois que foi meu vizinho que entrou no nosso quintal/beco para pegar a bola de futebol dele, o subúrbio e suas estórias… o que passa pela cabeça de um adolescente, forte, negão(opps, Afrodescendente), entrar no quintal dos outros quase a meia noite para pegar uma bola?! Ainda bem que a nossa casa era da paz, se fosse em outro lugar este menino seria abordado com bala.

Nossa casa não tinha nenhuma segurança mas nunca passamos aperto por ali. Tentaram arrombar a grade da porta umas duas vezes mas nunca ninguém entrou… acredito que deve ter sido algum ladrão desavisado das leis do subúrbio, geralmente estes não duram muito tempo pelo bairro.

Enfim, aprendi por ali que por mais difícil, confuso ou trágico que uma infância possa ser, a criança só precisa de Amor e alimentação para se desenvolver bem… o resto se arruma e acredito que apesar da confusão nós conseguimos.

One thought on “Ladrão no Quintal

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.