O Monge e a Pedra – Mestre Matsuo

Todos os dias o monge, vestindo seu manto amarelo saía do mosteiro, caminhava por cinco quilômetros e se sentava  em frente a um grande rochedo à sombra de uma árvore. Não dizia nada. Apenas ficava ali, diante da rocha como se estivesse a admirá-la por horas a fio. As pessoas que passavam pela estrada também olhavam para a grande rocha, mas nada viam a não ser o que ela era: uma pedra gigantesca apontando para o céu.

Cogitou-se que o velho monge havia enlouquecido, pois, ele repetia aquele ritual por meses, anos e décadas.  Mas, ninguém, nem mesmo o abade superior, ousou perguntar ao monge, a razão daquele insólito comportamento. Não importava se fizesse sol ou chuva – todos os dias, o monge caminhava até o dito local, e lá ficava apenas olhando para a rocha, como se nada mais houvesse no mundo.

Seria uma nova forma de meditação? Seria uma forma de adoração? Seria uma comunicação interplanetária o que ele buscava? Será que o monge estava vislumbrando algum metal valioso como prata ou ouro no interior da grande rocha? Ou será que o monge simplesmente havia mesmo perdido a sanidade.

Com o passar dos anos, outras pessoas foram se achegando e se sentando ao lado do monge. Todos também queriam desfrutar daquela “alguma coisa” que aparentemente o monge desfrutava, mesmo que ninguém soubesse o que era. Pensavam: afinal, se o homem era um mestre, deveria ter algo de espiritual, de mágico, de misterioso naquela atitude. Deveria haver alguma consistência no ato de contemplar a rocha diariamente.

Certa ocasião uma caravana passando pelo local, parou para ver aquele misterioso monge, diante da pedra. Todos, curiosos, olhavam para ela, sem saber direito o que contemplar. Um homem, no entanto, tomou coragem e perguntou ao ancião:

– Mestre, eu estou desde cedo olhando para essa rocha… já a olhei mil vezes e nada vejo. Por favor, diga-me, estou com problemas de visão? O que devo procurar na rocha? O que há aí para ser visto? Eu e toda essa gente aqui em volta, também nada vemos… por favor, diga-nos, o que o senhor está vendo e nós não estamos?

O monge sem se perturbar, sorriu amavelmente e respondeu:

– Calma… calma… eu também estou fazendo isso há mais de 30 anos… todos os dias me sento aqui e procuro alguma coisa para ver na rocha e ainda nada vejo, senão a rocha… Vocês chegaram ainda há pouco e já queriam ver? Vocês são muito apressados…

Ninguém achou graça e  por pouco não esfolaram o pobre monge. Foram embora furiosos. Mas, ficou lá um menino que não se deu por vencido e falou ao monge como se falasse para si mesmo.

– Deve haver mais para ver do que essa rocha… o senhor não viria aqui todos os dias se não fosse importante.

Então o velho mestre acrescentou:

– Você tem razão meu jovem. Essa rocha todos os dias me diz muito sobre a vida. Mostra-me  como ser silencioso, imperturbável. Podem vir ventos, chuvas, relâmpagos… sol  escaldante, luz do luar, brisas e orvalho… o que for – ela está ali serena, esperando sem preocupações. Ela sabe que tudo passará e nenhum dia jamais será como o outro.

– A rocha não sente dor? Indagou o menino, se achegando mais ao mestre.

– Sente sim, mas não se incomoda. Aos poucos, tenho notado, a ação dos ventos fortes e da chuva vai retirando partículas da rocha e um dia ela será transformada em pó. Como tudo mais nesse Universo. Mesmo uma rocha firme como essa, se decomporá. Devíamos nos acostumar com esse fato e aceitar o que nos é inevitável. Ela aceita a carícia das brisas ou o calor abrasador do sol. Delicia-se com as chuvas mansas e com as tempestades.

– O que mais essa rocha lhe diz, mestre?

– Ela nada diz. Somos nós que dizemos a nós mesmos. Não existem verdades a serem ditas. A rocha está ali no lugar onde foi colocada, onde deveria estar. Somos parte dela e ela é parte de nós. Muitos pensam que dentro dela pode existir ouro, prata, diamantes ou outras pedras valiosas. Pode sim, pois em cada ser, há muita coisa preciosa incrustada em suas células ou seus átomos. Depende do esforço de cada um se quiser encontrá-las e lapidá-las.

– Deveríamos detonar a rocha para ver o que tem lá dentro, mestre? Assim todos na região ficariam ricos… é isso o que o senhor está sugerindo? Contratar uma empresa de mineração…

– Não disse nada disso. A rocha por si só já é valiosa… ela é uma forte barreira contra ventos e enchentes. Ela  é refúgio de muitas aves. Ela dá sombra grande parte do dia. Só isso já é uma grande riqueza de quem sabe valorizá-la. Não há nada neste universo que não tenha valor. Tudo o que existe, existe por uma razão, por uma utilidade, mesmo que não sejamos capazes de descobri-la. Explodir a rocha e reduzi-la em pedacinhos seria antecipar o que a Natureza  já está fazendo em seu ritmo natural. E o pior, é que tudo o que fosse encontrado não satisfaria às necessidades e ganância das pessoas. As pessoas iriam se matar para ter um pedacinho de metal que na verdade não serve para nada.

– Mestre, você já foi lá em cima da rocha?…. recomeçou o menino com suas perguntas.

– Shhhhhh… silencie agora. Se quer ficar aqui comigo, deve aprender com a rocha. Silencie. Não queira ter todas as respostas de um vez.  Mas vou lhe responder apenas essa última pergunta, ok?

– Obrigado mestre… – disse o menino.

– O que você quer fazer lá em cima se não aprendeu nem mesmo contemplar e apreciar o que tem aqui em baixo?

Depois disso, durante anos, duas pessoas foram vistas todos os dias sentada diante da rocha. Quando o velho monge faleceu, havia outro monge em seu lugar – o menino que decidira seguir o caminho dos mestre.

FIM

POSSÍVEIS MORAIS DA HISTÓRIA ZEN: (Se você encontrar outras lições, por favor envie-as para eu acrescentar – Obrigado)

“Aprenda a rir, relaxe, o mundo não vai acabar só porque não tem uma boa explicação para o que está acontecendo.~”

“Muitas pessoas querem ir para um Céu depois que morrerem, mas não são capazes nem mesmo de apreciar e desfrutar do que tem aqui na Terra.”

“Não queira ser o que você não é. Uma rocha não precisa ser nada além de ser ela mesma.”

“ Aprenda com quem já está no caminho a mais tempo.”

“Dentro de cada ser existem tesouros insuspeitáveis”;

“Tudo passa, tudo se acaba… até uma rocha.”

“Milhões de outros seres humanos já tentaram encontrar as respostas para os grandes mistérios da vida há milhares de anos, você chegou agora e já queria descobrir tudo?”

“Não tenha pressa para saber tudo… quem disse que você precisa saber e descobrir tudo?”

“Seja como a rocha, dê sombra, sirva de abrigo, enfrente o que for mas permaneça sereno(a).”

“Nada somos, ao fim de tudo somo apenas pó…”

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