Simplesmente Respire

Um dia o discípulo aproximou-se do mestre. Estava confuso e agitado. O seu semblante carregava o peso da dúvida e a ânsia de todas as respostas. Pela sua boca queriam sair, atrapalhadas, mil e uma questões sobre a impermanência da vida, sobre o caos do mundo… Queria tanto saber, mais do que entender, qual o caminho a seguir para ser tão iluminado como o seu mestre. Em segredo, a sua maior dúvida era “Mestre como posso vir a ser tu?”
Atrapalhado e sem jeito, tropeçando sobre a roupa e caindo, derrubado pela pressa, ajoelhou-se ao lado do mestre, em frente a uma grande janela por onde o olhava o ancião, parecendo ver mais além daquilo que o discípulo alcançava. Aquela postura serena e contemplativa intrigava o jovem aluno que, insaciável pela fome do saber, aquela fome que corrói o estômago da alma e nos deixa vazios, em busca de algo que nunca vem, almejava compreender como transformar todos os seus lobos interiores em mansos e ordeiros cordeiros.
O Mestre permaneceu em silêncio, com o olhar suspenso na janela e a alma em suspenso num universo de janelas.
O aluno suspirou durante alguns instantes… Não um suspiro de libertação. Era uma expiração de desalento por sentir que o caminho era demasiado longo, e por vezes demasiado íngreme… duvidava se alguma vez a sua mente ruidosa deixaria de atormentá-lo com imagens do passado e do futuro. Recordava-se de onde vinha, de uma família pobre, muito pobre, que num acto de desespero o deixou à porta do mosteiro, depositando em Deus uma confiança insuspeitada…este seria o local mais seguro para uma criança que, aparentemente, não tem mais nada a perder.
O mestre escutando o suspiro, finalmente falou:
– Suspira mais três vezes.
O jovem, incrédulo e obediente, assim o fez. Sem perceber o motivo nem a razão suspirou, profundamente, três vezes seguidas. No final estava no mesmo local de onde tinha partido. Nenhum pensamento o tinha abandonado. Teria feito correctamente o que o mestre lhe tinha ordenado?
– E agora grande mestre? Devo continuar a suspirar?
Sem responder o ancião acenou com a cabeça.
O jovem, derrotado por aquela altivez muda, assim o fez. Perdeu a conta a quantos suspiros lançou no ar. Uns eram mais longos que outros, uns mais barulhentos, quase como o som do vento, outros tão contidos que mais pareciam arrepios de frio ou de medo.
O sol pôs-se no horizonte beijando as montanhas com um tom laranja. Se Deus fosse pintor esta seria a sua obra-prima: A tela das montanhas laranjas em fundo azul. Que bela paisagem, pensou o aluno, enquanto suspirava.
Nesse instante levou uma cotovelada.
– Ora aí está um suspiro de contemplação…
O jovem, atordoado, nem sabia o que dizer. Tinha sido, para ele, um suspiro igual a todos os outros.
– Mestre…estou cansado de suspirar…
– Podes parar quando quiseres.
– Posso parar agora?
– Se assim o quiseres…
– E que faço em seguida?
O ancião voltou-se, para ele, com o rosto meio escurecido, meio iluminado, pelas cores do entardecer. Nos seus olhos havia um brilho profundo inexplicável. Não era um reflexo… era mais do que isso, talvez fosse a alma, que com toda a sua luz, espreitava pelos olhos do corpo.
– A tua boca fala sem ordem, tal como a tua mente encena sem encenador. O teu coração simplesmente bate e o teu corpo é somente carregado por ti e pelos teus ossos… Onde estás tu no meio de tudo isto?
A pergunta estremeceu o aprendiz. Onde estaria ele nesse automatismo tantas vezes repetido?
– Sinto que estou sempre a correr, sempre a pensar, sempre a agir… se parar a vida pára, se deixar de projectar tudo escurece… fica apenas um vazio.
– E o que há nesse vazio que tanto temes?
O discípulo ficou pensativo… Começou por observar que sensações tinha quando pensava na pergunta. Auscultou o corpo e o coração… auscultou também a mente. Sentiu-se pequenino e indefeso perante esse vazio disforme. Sim, realmente temia o vazio. E se caísse no vazio? Morreria? Continuaria em queda livre? O melhor seria evitar o vazio…
– Observa melhor. – interrompeu o mestre. – Estavas a ir muito bem. Percebi em ti que começaste a observar. A observação é a chave da consciência. A chave que abre a porta até ti.
– Mas continuo perturbado e cheio de questões sombrias, mestre! Tantas que fico sem fôlego.
– Por isso te pedi que respirasses… que exalasses…que soltasses… Quando aprenderes a soltar irás perceber uma estranha leveza em ti. Ao princípio poderás sentir que te falta algo, mas depois compreenderás que aquilo que te falta é o que te prendia, o que te corroía e, por isso, parece fazer tanta falta. Quando soltamos aquilo que não precisamos, toda a energia que estava acumulada nesse processo de sustentação fica, por breves momentos, no ar… depois assenta, serena, torna-se em algo diferente, em algo leve, em algo com sentido. Nesse sentido há uma presença, um estado de atenção plena e pura. Tornas-te testemunha de ti mesmo, dos teus lobos famintos, dos teus desejos, das tuas projeções. Percebes que tudo existe em ti e tudo tem lugar em ti, mas o teu lugar não é esse, o teu lugar não tem lugar nem forma. És o todo que observa e que é observado, és o universo e o átomo, o amor e o desamor, o dedo e a mão… és a consciência suprema…E ser supremo é ser tudo isto, sem sentires que és tudo isso, sendo tudo e sendo nada, sendo vento e sendo água, ou talvez um fogo que arde à luz da tua presença.
– Então devo continuar a respirar mestre?
O mestre consentiu:
– Respiremos os dois.

João Perestrelo

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